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Estudos
Nesta seção, a equipe de Tênebra indicará estudos acadêmicos que tratam de obras, temas, autores e poéticas presentes em nossa biblioteca digital obscura. A cada quinzena, atualizaremos esta página com recomendações de livros, artigos e ensaios.


“Óleo da alma das coisas”: ecos de um imaginário gótico na arte da ilustração brasileira
A partir da história da cultura visual, Jorge Victor de Araújo analisa um “imaginário gótico” na ilustração brasileira. Sua atenção se volta especialmente para as ilustrações que acompanham contos publicados em revistas e periódicos cariocas. O pesquisador dá destaque ao trabalho de Oswaldo Goeldi, que ilustrou a tradução do conto “O gato preto”, de Edgar Allan Poe, na “Leitura para todos”, em 1920, e também a narrativa “A causa secreta”, de Machado de Assis, veiculada, em 1923, na “Ilustração Brasileira”. Esse diálogo interartes permite reforçar a presença da poética do gótico na literatura brasileira, invisibilizada pela historiografia literária tradicional. Como fio condutor de seu texto, o autor comenta a produção artística de Aldir Botelho, sobretudo as obras relacionadas ao conflito de Canudos.


A busca pela identidade da mulher em narrativas do Gótico Feminino
A condição feminina na sociedade e na literatura brasileira do século XX é o tema deste capítulo de Ana Paula Santos, que articula as lutas pela emancipação da mulher e as ansiedades exploradas pelo Gótico Feminino nacional. Ao longo do texto, são evocados importantes nomes dessa poética, como os de Júlia Lopes de Almeida, Mme Chrysanthème, Bertha Lutz, Lya Luft e, especialmente, Lygia Fagundes Telles — cujo conto “O espartilho” é analisado. Essa narrativa se volta para o Brasil dos anos 1940, repleto de uma “atmosfera de constante opressão e medo”, conforme descreve a pesquisadora. No texto, os conflitos geracionais entre mulheres de uma mesma família desvelam as tensões do feminino num ambiente patriarcal.


Gótico e Expressionismo na literatura brasileira (1920-1950): observações preliminares
Neste capítulo, Júlio França se dedica a apresentar as confluências entre as poéticas do gótico e do expressionismo na literatura brasileira novecentista, num período que se inicia em 1920 e se estende até 1950. Na seção do trabalho voltada para a análise ficcional, o pesquisador examina o conto “A sensação do passado” (1910), de João do Rio, para demonstrar como o gótico do século XX articula as tensões históricas e culturais em relação ao passado — que insiste em não desaparecer. A argumentação se baseia na percepção de que as vanguardas artísticas se valeram de estratégias discursivas e narrativas afins às poéticas do mal, como a valorização do grotesco, a percepção dissonante da realidade e a sensação de um futuro distópico.


Entre a atrocidade e a brutalidade; a estreia de dois contistas em 1922
A literatura brasileira conta com muitos escritores que, apesar de não terem integrado o cânone literário nem constarem em posição de destaque nas histórias literárias, produziram sistematicamente obras voltadas para as poéticas do mal. Esse é o caso de Gabriel Marques e Afonso Schmidt, dois ficcionistas que estrearam como contistas em 1922 — ano normalmente lembrado apenas pela Semana de Arte Moderna. O professor Marcus Salgado examina dois livros de contos dos autores a fim de demonstrar a presença de uma “estética da atrocidade” e de diversas ressonâncias da literatura decadentista. Nesses textos, há temáticas caras a produções finisseculares, como a exploração dos paraísos artificiais e a manifestação de uma sexualidade transgressiva.


Um paraíso perdido ao sul: traços de ambientação gótica e interdito familiar em Georgina (1873)
Neste artigo, os autores defendem a hipótese de que existem aspectos góticos, especialmente na ambientação, no romance “Georgina”, publicado na Revista Mensal da Sociedade Partenon Literário, um periódico gaúcho, entre 1873 e 1874. De autoria de Apelles Porto Alegre, a obra narra a queda da virtuosa heroína, cujo nome dá título ao texto, após se apaixonar por um forasteiro. Os interditos familiares e a opressão de normas sociais patriarcais ensejariam, discursivamente, descrições da degradação do espaço natural, antes vistoso e idealizado. A análise da narrativa demonstra como romantismo e gótico convergiam em publicações na imprensa brasileira em diferentes cidades do país.


Intersecções entre sexo e horror em dois contos de João do Rio
Os contos “O bebê de tarlatana rosa” e “O carro da Semana Santa”, de João do Rio, já podem ser considerados clássicos da literatura de medo brasileira. Neste artigo, Sabrina Fraccari e Pedro Santos analisam os dois textos, indicando de que modo os encontros sexuais das personagens resultam em situações de horror. Na parte inicial do trabalho, as noções de “livros para homens” e “literatura de sensação” são mobilizadas para apresentar o tipo de produção praticada pelo escritor carioca, que alcançava ampla difusão na imprensa do período. Em seguida, durante a análise ficcional, é destacado o arquétipo da femme fatale — figura importante do decadentismo, que corporifica desejos sensuais e ameaças letais.


Gabriel Marques (1892-1980), cronista da sub-humanidade
Para muitos leitores, o nome de Gabriel Marques (1892-1980), escritor paulista, não suscita nenhuma lembrança específica. O desconhecimento, ainda que lamentável, não é fortuito: sua obra ficcional, repleta de narrativas de horror, não entrou no cânone da literatura brasileira. No trabalho que hoje divulgamos, Leonardo Mendes e Mateus Assunção lançam luzes sobre a sua produção, a partir de um estudo de dois contos “atrozes” do autor: “Os condenados” e “O espelho”, ambos publicados em 1922. Tais textos demonstrariam uma ficção híbrida “moldada a partir da mistura de várias tradições, incluindo o gótico-romantismo, o naturalismo científico e a imprensa policial e sensacionalista”.


A tradição literária gótica em Humberto de Campos
A obra de Humberto de Campos está bastante presente no acervo de Tênebra e nas pesquisas sobre a literatura do medo no Brasil. Neste artigo, publicado em 2024, Ana Moraes da Silva e Naiara Araujo Santos defendem que diversos aspectos góticos podem ser identificados na produção do autor, especialmente nos contos analisados no trabalho — “A Noiva”, “Morfina” e “Retirantes”. A análise é centrada em três aspectos narrativos basilares da literatura gótica — o locus horribilis; a personagem monstruosa; e a presença fantasmagórica do passado. As pesquisadoras observam, ainda, como, mesmo em textos não inteiramente góticos, o escritor maranhense se valeu das poéticas do mal.


Modalidades do esteticismo decadentista: Uma análise comparativa entre Juca, o Letrado e Às Avessas
Neste artigo, Carlos Millen Grosso analisa o romance “Juca, o Letrado”, publicado em 1900 por Zeferino Brazil, e o compara a “Às Avessas” (1884), narrativa paradigmática da literatura decadente francesa, de Joris-Karl Huysmans. O trabalho deseja lançar luzes sobre a prosa do escritor, nascido no Rio Grande do Sul, cuja obra poética, simbolista, alcançou maior repercussão crítica. Ao longo da argumentação, destacam-se os temas do esteticismo, do isolamento, da aversão urbana e das doenças como elos entre dois textos, ainda que cada um os interprete segundo suas realidades socioculturais específicas. Por fim, o articulista demonstra como a modernidade literária não ficou restrita à Semana de Arte Moderna de 1922.


Gastão Cruls - traços de gótico, brasilidade e neofantástico na literatura brasileira?
Tendo como corpus de análise ficcional os contos “Noites brancas”, “Ao embalo da rede” e “O Espelho”, este artigo investiga a obra de Gastão Cruls sob os prismas do gótico e do insólito. Para os autores, Francisco Pérez e Filomena Gonçalves, tais narrativas seriam precursoras brasileiras do que chamam de neofantástico. Nessa vertente literária, o mundo real é entendido como “uma máscara, que oculta uma segunda realidade”. Não por acaso, as personagens e os enredos dessas narrativas produziriam "perplexidade e inquietude" no leitor, desvelando facetas ocultas da psique humana.


Desvirtuantes: as mulheres e o medo nas narrativas góticas de Júlia Lopes de Almeida
Em sua dissertação, Ana Raquel Farias analisa os contos “A Nevrose da Cor”, “Os Porcos” e “O Caso de Ruth”, antologizados em Ânsia Eterna (1903), para demonstrar como Júlia Lopes de Almeida criou narrativas góticas que subvertem papéis de gênero tradicionais. Com esse objetivo, os tópicos do terceiro capítulo se desenvolvem em torno das protagonistas dos textos — Issira, Umbelina e Ruth, respectivamente. Um segundo intuito da análise consiste em revelar as especificidades brasileiras dessa literatura de medo, que indicariam a atenção da escritora à realidade do país e aos nossos problemas sociais.
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