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Estudos
Nesta seção, a equipe de Tênebra indicará estudos acadêmicos que tratam de obras, temas, autores e poéticas presentes em nossa biblioteca digital obscura. A cada quinzena, atualizaremos esta página com recomendações de livros, artigos e ensaios.


Gótico e Expressionismo na literatura brasileira (1920-1950): observações preliminares
Neste capítulo, Júlio França se dedica a apresentar as confluências entre as poéticas do gótico e do expressionismo na literatura brasileira novecentista, num período que se inicia em 1920 e se estende até 1950. Na seção do trabalho voltada para a análise ficcional, o pesquisador examina o conto “A sensação do passado” (1910), de João do Rio, para demonstrar como o gótico do século XX articula as tensões históricas e culturais em relação ao passado — que insiste em não desaparecer. A argumentação se baseia na percepção de que as vanguardas artísticas se valeram de estratégias discursivas e narrativas afins às poéticas do mal, como a valorização do grotesco, a percepção dissonante da realidade e a sensação de um futuro distópico.


Entre a atrocidade e a brutalidade; a estreia de dois contistas em 1922
A literatura brasileira conta com muitos escritores que, apesar de não terem integrado o cânone literário nem constarem em posição de destaque nas histórias literárias, produziram sistematicamente obras voltadas para as poéticas do mal. Esse é o caso de Gabriel Marques e Afonso Schmidt, dois ficcionistas que estrearam como contistas em 1922 — ano normalmente lembrado apenas pela Semana de Arte Moderna. O professor Marcus Salgado examina dois livros de contos dos autores a fim de demonstrar a presença de uma “estética da atrocidade” e de diversas ressonâncias da literatura decadentista. Nesses textos, há temáticas caras a produções finisseculares, como a exploração dos paraísos artificiais e a manifestação de uma sexualidade transgressiva.


Um paraíso perdido ao sul: traços de ambientação gótica e interdito familiar em Georgina (1873)
Neste artigo, os autores defendem a hipótese de que existem aspectos góticos, especialmente na ambientação, no romance “Georgina”, publicado na Revista Mensal da Sociedade Partenon Literário, um periódico gaúcho, entre 1873 e 1874. De autoria de Apelles Porto Alegre, a obra narra a queda da virtuosa heroína, cujo nome dá título ao texto, após se apaixonar por um forasteiro. Os interditos familiares e a opressão de normas sociais patriarcais ensejariam, discursivamente, descrições da degradação do espaço natural, antes vistoso e idealizado. A análise da narrativa demonstra como romantismo e gótico convergiam em publicações na imprensa brasileira em diferentes cidades do país.


Intersecções entre sexo e horror em dois contos de João do Rio
Os contos “O bebê de tarlatana rosa” e “O carro da Semana Santa”, de João do Rio, já podem ser considerados clássicos da literatura de medo brasileira. Neste artigo, Sabrina Fraccari e Pedro Santos analisam os dois textos, indicando de que modo os encontros sexuais das personagens resultam em situações de horror. Na parte inicial do trabalho, as noções de “livros para homens” e “literatura de sensação” são mobilizadas para apresentar o tipo de produção praticada pelo escritor carioca, que alcançava ampla difusão na imprensa do período. Em seguida, durante a análise ficcional, é destacado o arquétipo da femme fatale — figura importante do decadentismo, que corporifica desejos sensuais e ameaças letais.


Gabriel Marques (1892-1980), cronista da sub-humanidade
Para muitos leitores, o nome de Gabriel Marques (1892-1980), escritor paulista, não suscita nenhuma lembrança específica. O desconhecimento, ainda que lamentável, não é fortuito: sua obra ficcional, repleta de narrativas de horror, não entrou no cânone da literatura brasileira. No trabalho que hoje divulgamos, Leonardo Mendes e Mateus Assunção lançam luzes sobre a sua produção, a partir de um estudo de dois contos “atrozes” do autor: “Os condenados” e “O espelho”, ambos publicados em 1922. Tais textos demonstrariam uma ficção híbrida “moldada a partir da mistura de várias tradições, incluindo o gótico-romantismo, o naturalismo científico e a imprensa policial e sensacionalista”.


A tradição literária gótica em Humberto de Campos
A obra de Humberto de Campos está bastante presente no acervo de Tênebra e nas pesquisas sobre a literatura do medo no Brasil. Neste artigo, publicado em 2024, Ana Moraes da Silva e Naiara Araujo Santos defendem que diversos aspectos góticos podem ser identificados na produção do autor, especialmente nos contos analisados no trabalho — “A Noiva”, “Morfina” e “Retirantes”. A análise é centrada em três aspectos narrativos basilares da literatura gótica — o locus horribilis; a personagem monstruosa; e a presença fantasmagórica do passado. As pesquisadoras observam, ainda, como, mesmo em textos não inteiramente góticos, o escritor maranhense se valeu das poéticas do mal.


Modalidades do esteticismo decadentista: Uma análise comparativa entre Juca, o Letrado e Às Avessas
Neste artigo, Carlos Millen Grosso analisa o romance “Juca, o Letrado”, publicado em 1900 por Zeferino Brazil, e o compara a “Às Avessas” (1884), narrativa paradigmática da literatura decadente francesa, de Joris-Karl Huysmans. O trabalho deseja lançar luzes sobre a prosa do escritor, nascido no Rio Grande do Sul, cuja obra poética, simbolista, alcançou maior repercussão crítica. Ao longo da argumentação, destacam-se os temas do esteticismo, do isolamento, da aversão urbana e das doenças como elos entre dois textos, ainda que cada um os interprete segundo suas realidades socioculturais específicas. Por fim, o articulista demonstra como a modernidade literária não ficou restrita à Semana de Arte Moderna de 1922.


Gastão Cruls - traços de gótico, brasilidade e neofantástico na literatura brasileira?
Tendo como corpus de análise ficcional os contos “Noites brancas”, “Ao embalo da rede” e “O Espelho”, este artigo investiga a obra de Gastão Cruls sob os prismas do gótico e do insólito. Para os autores, Francisco Pérez e Filomena Gonçalves, tais narrativas seriam precursoras brasileiras do que chamam de neofantástico. Nessa vertente literária, o mundo real é entendido como “uma máscara, que oculta uma segunda realidade”. Não por acaso, as personagens e os enredos dessas narrativas produziriam "perplexidade e inquietude" no leitor, desvelando facetas ocultas da psique humana.


Desvirtuantes: as mulheres e o medo nas narrativas góticas de Júlia Lopes de Almeida
Em sua dissertação, Ana Raquel Farias analisa os contos “A Nevrose da Cor”, “Os Porcos” e “O Caso de Ruth”, antologizados em Ânsia Eterna (1903), para demonstrar como Júlia Lopes de Almeida criou narrativas góticas que subvertem papéis de gênero tradicionais. Com esse objetivo, os tópicos do terceiro capítulo se desenvolvem em torno das protagonistas dos textos — Issira, Umbelina e Ruth, respectivamente. Um segundo intuito da análise consiste em revelar as especificidades brasileiras dessa literatura de medo, que indicariam a atenção da escritora à realidade do país e aos nossos problemas sociais.
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Forma literária e vida social na narrativa fantástica brasileira do século XIX: uma [...]
Em sua tese "Forma literária e vida social na narrativa fantástica brasileira do século XIX: uma investigação à margem do mundo", Frederico Santiago da Silva se debruça sobre o problema da literatura fantástica brasileira do século XIX, concentrando-se especificamente no conto. A partir de um corpus selecionado, a abordagem de análise consiste em relacionar os procedimentos internos das narrativas com os aspectos da vida social que é plasmada na composição dos textos. Para esse fim, o método de leitura está embasado num conceito de fantástico resultante da combinação das principais discussões acerca desse fenômeno literário, que giram em torno das elaborações teóricas de Tzvetan Todorov, Irène Bessière, Remo Ceserani e David Roas. Partindo da percepção de que existe uma carência de trabalhos sistemáticos a respeito da narrativa fantástica brasileira nos estudos literários, a abordagem delineia o desenvolvimento do conto fantástico oitocentista a fim de fornecer subsídios para uma compreensão mais ampla dos procedimentos narrativos ficcionais em sua relação com o imaginário brasileiro acerca da realidade que se constrói no século XIX.


Paisagem do medo e do horror em O Esqueleto; crônica fantástica de Olinda
A obra do pernambucano Carneiro Vilela deve interessar quem investiga as manifestações do gótico e do insólito na literatura brasileira oitocentista. Neste artigo, Luciane Santos examina um dos folhetins do autor — “O Esqueleto; crônica fantástica de Olinda” —, publicado em 1871. A pesquisadora desenvolve uma análise da espacialidade fantasmagórica do romance, tendo como foco o monumento da Cruz do Patrão, também presente em tantas outras narrativas de Tênebra. Nessa investigação, fica patente como parte importante da história folhetinesca de nossas letras, repleta de crimes e mistérios, estruturou-se em torno de histórias e causos populares no país.


O Pio da Coruja: elementos góticos em S. Bernardo, de Graciliano Ramos
Mateus Maia analisa o romance S. Bernardo (1934), de Graciliano Ramos, a partir da noção de “discursividade gótica”. Considerando três elementos narrativos basilares — o locus horribilis; a personagem monstruosa; e o passado fantasmagórico — e conjugando-os à decadência rural da narrativa, o autor sustenta que a obra pode ser descrita como um exemplo de “Gótico Rural brasileiro”. Ao longo do trabalho, compara-se o texto brasileiro com Absalom, Absalom! (1936), romance de William Faulkner, e conclui-se que as duas obras se valem de recursos imagéticos e estilísticos do gótico para abordar traumas históricos.


Vampirismo e representação feminina na literatura oitocentista brasileira
Nesta tese, Débora Brauner realiza um estudo das relações entre a figura da femme fatale e o tema do vampirismo, a partir de três obras brasileiras: o poema “Octávio e Branca: ou a maldição materna” (1849), de Cardoso de Meneses; o romance “A mortalha de Alzira” (1895), de Aluísio Azevedo; e o conto “A neurose da cor” (1889), de Júlia Lopes de Almeida. A cada um desses textos é reservado um capítulo do trabalho, com especial destaque para a maneira como os autores do corpus desenvolviam suas personagens femininas. Para a pesquisadora, esses exemplos da literatura gótica observaram o feminino a partir de uma dualidade: “se gentil e passiva, a mulher é tida como angelical e, portanto, boa; se sedutora e transgressora: má”.


Horror à Brasileira: Coletâneas nacionais de Horror de 2020 a 2023
As antologias de contos funcionam como bons guias para leitores e pesquisadores entenderem como uma determinada época trabalhou com as diferentes poéticas do mal. Nesta dissertação, defendida em 2024, Stephanie de Brito Leal lança um olhar para as coletâneas de horror publicadas no Brasil, com corpus nacional, entre 2020 e 2023. Focadas na literatura contemporânea, essas publicações oferecem um panorama dos assuntos, estruturas narrativas e referências intertextuais privilegiados por nossos autores. Em sua análise, Leal indica que a maioria dos contos analisados explora fenômenos inexplicáveis, com importante ênfase para eventos apocalípticos e para o tema da religião.


A metonímia horrífica na ficção: a concepção sui generis de monstros em "Consciência tranquila"
Neste artigo, Gabriel Resende analisa o conto “Consciência tranquila” (1897), de Cruz e Sousa, a partir da categoria de “monstruosidade por metonímia”, formulada por Noël Carroll. Esse tipo de figuração ocorre quando o aspecto repulsivo de uma personagem é indicado por associações e signos externos às suas características aparentes. No corpus escolhido, o protagonista — um escravagista em seu leito de morte — é apresentada a partir de uma série de recursos discursivos que destacam a vileza de seus crimes e o contexto abominável da escravidão. Para o pesquisador, essa estratégia narrativa seria particularmente produtiva em tradições literárias como a brasileira, cuja crítica valorizou obras mais realistas e documentais — pouco afeita a monstruosidades sobrenaturais e fisicamente repugnantes.


“A mania do horrível”: o grotesco e a Primeira Guerra Mundial na literatura brasileira
A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi objeto de inúmeras obras de arte não apenas na Europa, como também no Brasil. Muitas delasse utilizaram de recursos expressivos típicos das poéticas do mal para retratar os horrores da guerra. Nesse artigo, publicado em 2014 na Revista Matraga, Júlio França e Daniel Augusto defendem que o grotesco foi a principal estratégia artística de diversos escritores nacionais para indicar a percepção de irracionalidade e absurdo que dominou o período. A partir de contos de Coelho Neto, João do Rio, Alfredo Taunay, Júlia Lopes de Almeida, Gustavo Barroso, Mário Sette e Afonso Schmidt, os pesquisadores demonstram como as letras brasileiras também produziram uma “literatura rubra”, marcada pela “mania do horrível”.


Horrores femininos na literatura gótica brasileira de Júlia Lopes de Almeida
Os textos de Júlia Lopes de Almeida, especialmente os contos de “Ânsia Eterna” (1903), ainda ensejam novas reflexões para a análise do gótico na literatura brasileira. Em dissertação defendida em 2023, Magda Oliveira da Silva estuda a coletânea de narrativas da autora não apenas sob o ponto de vista do Gótico Feminino, mas da poética gótica em seu sentido mais amplo. No terceiro capítulo do trabalho, dedicado à análise ficcional, a pesquisadora elenca alguns dos temas góticos que identifica na obra da autora, tais como a exploração da sexualidade, a religiosidade, a morte, a loucura, a maldição dos pecados paternos e a educação feminina baseada no isolamento. Na conclusão, defende que a escritora “se utilizou das lacunas da poética gótica para retratar os horrores e tensões do povo brasileiro”.

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